A caminho de Geltenhütte aprendi a respeitar a vida

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Parafraseando Vergílio Ferreira “Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê”, vou tentar pois relatar esta aventura da melhor forma possível para que possam compreender a escolha do título.

Em finais de março do corrente o meu camarada Angel enviou-me um email, convidando-me para uma volta de +/- 18 kms para os lados de “Gstaad” mais precisamente a arrancar em “Lauenen” a 1’245 mts e daí seguirmos para a cabana de “Geltenhütte” a 2’003 mts.

Não esquecer que ainda estávamos em pleno inverno, pelo que tendo analisado o track que ele me enviou constatei que não iria ser tarefa fácil pois em muitas partes do trilho os declives eram acentuados, mesmo que munidos de raquetes e sticks.

Por norma sou eu que desenho os tracks e fruto de alguns anos de experiência no terreno, aprendi que por vezes não basta desenhar um trilho muito giro isto porque por vezes o mesmo não é exequível “in loco”, daí que na fase de desenho entro em linha de conta com muitos parâmetros que não vale a pena aqui esmiuçar.

Considero-me uma pessoa muito aberta de espírito, sempre pronta a aceitar novas experiências, novos desafios e gosto também de deixar “os mais novos” (sem qualquer significado deprecistivo) darem azo à sua imaginação, pelo que pensei para comigo “what a fuck, let’s see what’s happen”.

Tendo ligado mesmo assim ao Angel a este respeito e chamado a atenção para os declives, este informou-me que tinha efetuado esta volta no passado, sendo que na altura não havia neve, pelo que achava a mesma exequível.

“Wrong answer my friend!” Não me interpretes mal Angel! mas a mesma volta realizada em alturas diferentes, neste caso com e sem neve, apresenta também características diferentes e que não podem ser menosprezadas.

Bom, tudo isto para vos enquadrar um pouco sobre o que a seguir vai ser cronicado 😊.

Os primeiros cinco kms fazem-se bem, percorrendo extensas florestas e alguns singles até chegarmos ao primeiro patamar “Lago Lauenensee” a 1’400 mts.

Uns 2 kms mais à frente do lago, a progressão complica um pouco, pois temos de travessar um trilho de floresta bastante íngreme, coberto de neve que entretanto se tinha quase transformado em gelo. Mas as raquetes não possuem “crampons”! dirão vocês. Claro que sim, as raquetes estão munidas de 3 pares de espigões (frente, meio e trás) com cerca de 2 cms de altura cada.

Foi nessa altura que cruzamos a primeira alma do dia, neste caso um “skieur” em solitário com a sua mochila às costas. Em conversa disse-nos que tinha arrancado dos “Diablerets” a +/- 3’000 mts. Pelo aspeto e pela calma demonstrada a descer ao mesmo tempo que conversava connosco via-se que não era um qualquer amador, pois para chegar aqui é preciso ser-se mesmo bom.

Para terem uma ideia, neste trilho coberto de neve, bastava deslizarmos fora, para termos direito a uma escorregadela de mais de 200 mts sem qualquer possibilidade de nos agarrarmos a nada e o mais certo era ficarmos empalados vivos num qualquer tronco de arvore ou ramo.

Para mal dos nossos pecados, o “skieur” vinha a descer e nós a subir, logo todo o trilho a fazer ficou completamente liso, o que dificultou ainda mais a progressão. Para quem não sabe, este tipo de “ski” é muito mais largo que a norma, isto para uma melhor aderência nos declives, logo implica muita mais neve alisada 😊.

Aos poucos lá fomos progredindo (Luís à frente, Angel no meio e eu atrás a fechar), tendo chegado a um ponto em que pela primeira vez me questionei se deveríamos abortar a volta, isto porque mesmo com a ajuda das raquetes e sticks, via o meu companheiro Angel a deslisar. Apercebi-me que todos desejávamos prosseguir, mas os nossos passos tornavam-se cada vez mais instáveis, e o mais pequeno deslize fora do trilho era a morte certa do artista. Convêm salientar que falamos de trilhos com cerca de 50 cms de largura útil. Claro que tentamos também avançar, saindo do trilho, mas por vezes nem mesmo assim, obrigando-nos a pausas para refletirmos sobre a melhor abordagem.

Acreditem, é preferível por vezes perder um pouco mais de tempo parando para pensar do que arriscar a vida por uma decisão tomada de ânimo leve.

Enquanto perfazíamos estes 500 mts, instalou-se em nós uma sensação estranha, uma mistura de adrenalina e medo ao mesmo tempo, pois as pernas embora comandadas pelo cérebro, tremiam Q.B. e por vezes mesmo, recusavam obedecer, até parecia que tinham vida própria e diziam para com elas “tirem-me daqui”.

Já passei em três ocasiões por situações similares e sempre mantive o sangue frio, mas aqui era diferente, estava acompanhado, isto é, conheço os meus limites e as minhas capacidades, sei como o meu corpo e mente reagem em situações de risco e picos de adrenalina mas desconhecia a reação dos meus companheiros.

O meu receio não era eu partir desta para melhor pois considero que já fiz muitas coisas interessantes nesta vida, mas sim acontecer qualquer coisa aos meus companheiros, sendo que um deles até tem idade suficiente para ser meu filho 😊 (Luís, sem qualquer tipo de paternalismo. OK!)

Esqueci-me de mencionar que aquando da conversa com o “skieur”, indagamos sobre o estado da neve ao longo do trilho e este disse-nos que iríamos penar para atingir os 1’500 mts (segundo patamar da volta).

O homem não se tinha enganado pois embora já recompostos do primeiro episódio e com uma vontade firme de atingirmos o nosso objetivo voltamos a ser bafejados pela sorte “if you know what I mean”; pouco antes dos 1.500 mts eis que temos de atravessar cerca de 150 mts com uma inclinação superior à anterior. Para agravar as coisas e embora seguíssemos o trilho desenhado (a famosa linha preta no GPS), no terreno não havia marcação do trilho, só neve e mais neve, pois várias passagens de “skieurs” tinham apagado o trilho marcado (transporte e compactação da neve).

Após este novo infortúnio lá chegamos ao tão desejado patamar. Comemoramos o feito com um café (sim, levo sempre uma termos com café para as nossas voltas!) e aproveitamos para meter algo no bucho.

Posto isto, decidimos meter pés ao caminho, pois o tempo parecia querer mudar, começando a acumularem-se nuvens para os lados da cabana e como sabem, nuvens a estas alturas não pressagiam nada de bom.

Embora toda a zona fosse libre de vegetação, só neve e rocha, ouvíamos por vezes o ranger da montanha e em muitos locais eram visíveis as marcas deixadas por pequenas avalanches, digo pequenas em termos de tamanho, mas suficientemente mortais.

Como poderão constatar nas fotos tiradas, as nossas presenças limitam-se a pequenos pontos totalmente insignificantes no cenário; aqui pelo contrário devido à exposição solar, a neve estava muito mole, dificultando a progressão e para colmatar tudo isto tínhamos de vencer uma parede com 35 a 45% de inclinação.

Uma vez que estávamos com pressa pois tínhamos perdido imenso tempo nas etapas anteriores, decidimos subir em linha reta ao invés de aproveitarmos os ziguezagues deixados pelos “skieurs”. Não posso dizer que foi a melhor escolha, mas sim a possível, já que tínhamos que progredir, mas posso-vos dizer que a cada 10 metros de desnível vencido tínhamos de parar para recuperar o fôlego.

Após quase uma hora neste suplício e tendo-me os meus companheiros dado um avanço considerável (Sim, sou o elo mais fraco! Fora de brincadeiras sou o repórter de serviço, logo atraso-me.), eis que perto dos 1’750 mts os meus companheiros anunciam o fim da nossa aventura.

Porquê! Perguntei eu à distância. Afinal a partir daquela zona e numa extensão superior a 100 mts a neve tinha-se transformado completamente em gelo. Não valia a pena insistir, era impossível contornar, somente se tivéssemos “des chaussures avec des crampons” e picaretas.

Claro que ninguém gosta de ouvir a palavra abortar, abandonar, chamem-lhe o que quiser, não depois de todo este sofrimento, mas por vezes “il faut se rendre à l’évidence” e eu próprio acredito que se por três vezes em ocasiões diferentes somos impedidos de progredir; isso para mim é sinal evidente que talvez esse dia não seja o melhor e que talvez a montanha nos esteja a transmitir uma informação antes que um acidente grave aconteça. Talvez seja para alguns um “total nonsense” mas até hoje tenho-me dado bem com este tipo de avaliação.

Enquanto aproveitava para tirar umas chapas, eis que vemos chegar um grupo de 7 “skieurs” similares ao que vimos pela manhã. Vinham em fila indina, mantendo as respetivas distâncias de segurança e a sincronia de movimentos era tal que mais pareciam bailarinos. Quando passavam por nós olhavam-nos com aquele olhar incrédulo tipo “Meus malucos, que fazem vocês aqui!”

Para além do azar da subida, tínhamos agora de enfrentar a dificuldade da descida, passo a explicar a equação: 1.Tínhamos de vencer 100 mts de desnível em cerca de 250 mts; 2.Com neve mole, que só pode ser vencida com raquetes; 3. Sem marcação de trilho visível; 4. Não podíamos utilizar as raquetes a descer, pois iríamos cair para a frente e daí rebolar até lá abaixo.

Claro que os mais “inteligentes” dirão, porque não descer “invertidamente”?, passo a explicar, como se fossemos a subir, ou seja, a recuar. Tal é impossível porque nem todas as raquetes possuem a patilha de bloqueio atrás, que permite que quando se caminha o pé fique preso; para além de que devido à configuração das raquetes nas extremidades (em bico) existe sempre o risco ao recuarmos de espetarmos a raquete no solo e vai daí é tombo e enrolamento pela certa até lá abaixo.

Após alguma meditação e experiências achamos que só tínhamos uma alternativa, que passava por fazermos “SKU”, ou seja, fizemos como fazem os cães quando acabaram de defecar e querem limpar bem o cagueiro em cima da relva (os mais puristas que me desculpem o jargão, mas esta palavra é tão, tão libertadora 😊).

Imaginem bem a cena, 3 marmelos a arrastarem a peida por ali abaixo. O Luís foi a primeiro a atirar-se, de seguida o Angel e por fim o “Je” que ainda por cima estava de calças de ganga. Nem vos conto em que estado chegamos lá abaixo, é nesses momentos que nos apercebemos o quão fria, quente e lancinante ao mesmo tempo pode ser a neve.

Mal refeitos da descida e visto o avançar da hora, fomos nos preparando para repetir tudo aquilo por que passamos a subir.

Para finalizar, queria aqui publicamente agradecer ao Angel por este fantástico dia, a vida é isto mesmo e ao Luís pela sapiência das decisões.

Meus amigos, passaram esta prova de fogo com nota máxima!

Como diria Gabriel Márquez “A vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda”.


Cumprimentos betetistas e até à próxima crónica…

Alexandre Pereira

Um Bravo do Pelotão, neste caso sem…

Podem visualizar esta crónica com os respetivos comentários às fotos no FORUM BTT. Ler o post (resposta) #541.