Do Lac-de-Bretaye tentei alcançar a Argentina

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Para variar porque não iniciar esta crónica com algo que vos coloque os neurónios em movimento 😊. Prometo que a resposta será dada no decorrer da crónica, não no fim porque era demasiado fácil, isto é, já estou a imaginar a malta a descer até ao fim e depois népias para a crónica, tá quieta, isto é o que muitos desejariam, mas meus amigos, para mal dos vossos pecados vão ter de gramar com a crónica 😊.

Um homem que tinha 17 camelos e 3 filhos, morreu.

Quando o testamento foi aberto, dizia que metade dos camelos ficariam para o filho mais velho, um terço para o segundo e um nono para o terceiro.

O que fazer?

Eram dezassete camelos; como dar metade ao mais velho?

Um dos animais deveria ser cortado ao meio?

Tal não iria resolver, porque um terço deveria ser dado ao segundo filho.

E a nona parte ao terceiro.

É claro que os filhos correram em busca do homem mais erudito da cidade, o estudioso, o matemático.

Ele raciocinou muito e não conseguiu encontrar a solução, já que a mesma é matemática.

Então alguém sugeriu: "É melhor procurarem alguém que saiba de camelos, não de matemática".

Procuraram assim o Sheik, homem bastante idoso e inculto, mas com muito saber de experiência feito.

Contaram-lhe o problema.

O velho riu e disse:

"É muito simples, não se preocupem". *

Esta volta realizou-se em finais de Agosto do ano transato e não na companhia dos camaradas do costume (Luís e Angel), uma vez que um estava para os lados da Eurobike e o outro estava com a bicla “abariada”.

Esta volta realizei-a com um novo companheiro, sim, leram bem, um novo companheiro com quem comecei a trocar informações via este Fórum. É que para quem não sabe ou está se borrifando para os números, estas crónicas começam a ser um bom ponto de partida para quem se instala nas Terras Helvéticas 😊. Quase que me atreveria a parafrasear o Google ao afirmar que se não está neste tópico, não existe na “Chuicha”, “sorry, I am just kidding”.

Para quem não conhece o Natercio, este é o homem que conduz uma "cãonãodeile" (esta é só para quem esteve atento a posts anteriores). Tratando-se de uma pessoa afável e que tal como eu, sofre da mesma loucura, não foi muito complicado agendarmos uma volta para os seus lados ou seja para “Bex”, quase a entrarmos no Valais.

A ideia era encontrarmo-nos em “Bex” (424 mts) e daí apanharmos o comboio de cremalheira que nos conduziria até “Villars-sur-Ollon” (1'258 mts) onde mudaríamos para outro comboio que nos levaria até ao “Col-de-Bretaye” (1'813 mts) e daí iniciaríamos o nosso périplo.

O objetivo da volta era contornar a montanha “L’Argentine” a 2'422 mts (aposto que ao lerem o título, julgaram que tinha ido pedalar para a Argentina 😊), passando pela “Cabane Barraud” a 2'042 mts. A ideia era interessante, mas como muitas vezes na vida, as ideias não passam de ideias 😊.

Como podem constatar pelas fotos, o dia estava soberbo, melhor era impossível. A volta inicia com uma passagem por 3 lagos muito próximos uns dos outros, “Lac de Betaye” a 1.785 mts, “Lac Noir” a 1.722 mts e “Lac de Chavonnes” a 1'698 mts. Nesta altura do ano cruzamos muitos exemplares de gado vacum a trabalhar para a engorda, pois dentro em breve estes iriam regressar aos estábulos em zonas mais baixas (o chamado “désalpe” que ocorre desde meados de setembro a meados outubro). Durante este período temos de estar sempre alerta quando cruzamos as crias pois o risco de termos de dar à soleta, digo dar à “pneueta”, é enorme.

A volta foi fluindo, ora subindo, ora descendo, ora atravessando imensas florestas, ora atravessando grandes “open-spaces”, mas tendo sempre como pano de fundo as montanhas “Les Diablerets” a 3'210 mts, onde já fui também muito feliz em agosto de 2013. As fotos não mentem, “singles” eram mais que muitos!

Pelo meio fomos constatando algumas curiosidades tais como o campo de golf de 18 buracos a 1'660 mts que se vê numa das fotos. Diga-se de passagem que está mais alto que o campo de golf de “Crans-Montana”, mas mesmo assim muito abaixo dos 2'000 mts do campo de “Adelboden” (mais alto da Suíça). Tudo isto para vos dizer que na vida tudo é possível, haja mercado, vontade e “loiras”, agora compreendo o porquê do empresário português Armando Pereira ir investir 100 milhões num campo de golfe para os lados de Guilhofrei em Vieira do Minho. “My friend, alembra-te apenas que estás somente a +/- 400 mts above sea level!”

Para não fugir à regra, cruzamos muitos “randonneurs” que como sempre em certos locais de difícil acesso e perigosidade nos olhavam com aquele ar misto de curiosidade e de “unbelievable”; claro que adivinho que muitos estavam apenas à espera ou a desejar a queda dos artistas 😊.

Aproveitamos para parar na aldeia de “Taveyanne” a 1'654 mts e meter alguma coisa no bucho.

Daí seguimos até ao “Refuge de Solalex” a 1'463 mts, visível na terceira foto a contar do fim, o conta-quilómetros indicava 27 kms realizados. Este local era a base de partida para a segunda fase da volta, isto é, vencer um desnível de 600 mts que se prolongava por quilómetros intermináveis de subida e que nos permitiria alcançar “L’Argentine”.

Metemos pernas à obra, se bem que do meu lado a vontade fosse nenhuma, pois a falta de treino a estas altitudes não perdoa.

Aqui, foi o Natercio que foi puxando por mim, mas eis que após quase 1 km este recebeu uma chamada da esposa. A chamada em si não era muito importante, mas vocês homens, sabem como uma mulher pode desestabilizar e persuadir ao mesmo tempo, quando um gajo não está perto delas 😊

O meu amigo tinha-se esquecido que nesse dia era o aniversariante e que portanto “habia” compromissos de horas a respeitar para com as “bisitas” que “binham” a casa jantar e desejar os parabéns (coisas de mulheres 😊)

Basicamente tínhamos de fazer uma opção, ou seja, abortar aqui a volta ou correr o risco de um “dibórcio”.

Após longos e penosos momentos de reflexão por parte do Natercio (reparem como o homem é viciado, pois mesmo assim ponderou a continuação da volta), este acabou por decidir não realizar o parto.

Embora na altura ele não soubesse, esta decisão soube-me pela vida. Obrigado amigo, há infortúnios que são benesses dos deuses para outros!

Na penúltima foto podem ver os locais por onde vamos andar em crónica oportuna, sim porque este Bravo assim como o Natercio não se deixaram vencer por esta desdita. Como era espectável, voltamos com todas as tropas para vencer a Argentina e que batalha, por pouco não deixávamos lá o coiro.

*Emprestou um dos seus camelos, eram agora 18 e depois fez a divisão.

Nove foram dados ao primeiro filho, que ficou satisfeito.

Ao segundo coube a terça parte, seis camelos e ao terceiro filho foram dados dois camelos, a nona parte.

Sobrou um camelo, o que foi emprestado.

O velho pegou seu camelo de volta e disse: "Agora podem ir".

Esta história serve para ilustrar a diferença entre a sabedoria e a erudição. A sabedoria é prática, o que não acontece com a erudição.

17+1= 18

1º Filho - 18/2= 9

2º Filho - 18/3= 6

3º Filho - 18/9= 2

9 + 6 + 2 = 17 Camelos

(está cumprido o testamento, pois 18 -17 = 1. Sobrou 1 camelo que foi entregue de volta ao seu proprietário)

Desde o “Refuge de Solalex” até “Bex” foram cerca de 16 kms todos efetuados quase por estrada. Ainda tivemos tempo de dar uma saltada às “Gorges de l’Avançon”, onde o Natercio pousou para a posteridade na ponte suspensa.

Esta volta saldou-se em 44 kms e embora o encurtar da volta nos tenha ficado atravessado na goela, viemos a constatar mais tarde aquando da repetição da mesma que por vezes há decisões que não devem ser mudadas, mas disso vos falarei mais em detalhe em crónica vindoura.


Cumprimentos betetistas e até à próxima crónica…

Alexandre Pereira

Um Bravo do Pelotão, neste caso sem…

Podem visualizar esta crónica com os respetivos comentários às fotos no FORUM BTT. Ler o post (resposta) #594.