Regresso atribulado à l’Argentine

Carousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel imageCarousel image

Francis Bacon escreveu certa vez “Os homens sábios, para declinarem a inveja que possa incidir sobre os seus méritos, usam atribuí-los à providência e à fortuna (sorte); porque assim podem falar deles, e, além disso, é honroso para o homem ser benquisto dos poderes superiores.”

Vem isto a propósito da nossa visita à “L’Argentine” em setembro pela segunda vez. Se bem se recordam já lá tinha andado bem perto com o Natercio em agosto, mas na altura ficamo-nos pelos 1'463 mts “Refuge de Solalex”.

Desta vez fui acompanhado pelos amigos Natercio, Angel e Luís. Tal como da última vez o dia prometia, sol q.b. Até à quarta foto nada de novo, exceto talvez a vaca que se atravessou no nosso caminho 😊.

A partir dos 1'463 mts aguardava-nos uma subida e que subida meus amigos, esta metia respeito, só para terem uma ideia, sobe-se em cerca de 3,3 kms +/- 450 mts de desnível, foi por isso que da última vez as nossas pernas se recusaram 😊.

Bem ou mal, mas no meu caso, mesmo muito mal (um dia dir-vos-ei porquê!), lá chegamos ao “Refuge Giacomi” a 1'891 mts, mas quando achávamos que as subidas tinham acabado, eis que para continuar, tínhamos de subir ainda até aos 2046 mts e passar pela “Cabane Barraud”.

Se até aos 1'891 mts a malta até foi mugindo, ganindo, mas sempre bem-disposta, mal notaram que tinham ainda de passar a barreira dos 2'000 mts, o semblante mudou completamente, passaram por todos os estados, mas lá foram teimando; afinal duros e bem duros.

Confesso que a culpa foi toda minha, passo a explicar, na ânsia de ir lá acima, saquei o track do Wikiloc e estava lá bem mencionado que este era exequível de bicicleta, aliás no Google Earth eram bem visíveis os caminhos por onde iriamos passar; bem, pensei eu, que “singles” fantásticos e nem a altimetria e declives (era a descer) abruptos me demoveram da ideia dos percorrer.

O problema que se coloca hoje em dia quando sacamos tracks sem conhecermos minimamente a zona é que o energúmeno que colocou este track online, esqueceu-se de mencionar que SIM, podemos efetuar o track de bicla, mas não em cima dela; ou seja acabamos por efetuar cerca de 4 kms com a bicla às costas para quase 400 mts de descida.

Pelo meio acabamos por cruzar um grupo de +/- 20 “gajas” (havia para todos os gostos, gordas, magras, bonitas, feias, altas, baixas, etc...), mal passamos por elas, começaram logo a mandar bocas. Pena já se fazer tarde, senão tinha-mos aviado algumas. Parem com isso suas mentes pecaminosas, digo, tínhamos aviado umas valentes loiras, NÃO, ainda não é isso que estão a pensar, falamos de reposição de líquidos, “well”, não vale a pena a gente discutir convosco, vocês levam sempre para aquele sítio 😊.

Não sei se repararam, mas nas fotos encontro-me a cerca de 500 mts de distância dos meus companheiros, foi feito de propósito, em primeiro lugar porque assim não tive de aguentar a má disposição do grupo, subir já de si é fo.., mas com ela à mão, ainda pior; em segundo lugar porque desejava transmitir-vos a perspetiva do quão pequenos nós somos, relativamente à grandiosidade das paisagens calcorreadas.

Claro que para complicar ainda mais a coisa, o tempo foi fluindo e a pouco e pouco um pequeno mal-estar foi-se apoderando da minha pessoa, isto porque o GPS estava a ficar sem bateria, aliás acabou por morrer quando atingi aquele vale visível na 5ª foto a contar do fim; para além disso o telemóvel em alta montanha não tem qualquer utilidade, pois não temos rede.

Ao longo da minha curta carreira em alta montanha já passei por algumas situações complicadas, mas sempre sozinho, o que quer dizer que em caso de problema, este é só meu, aqui a situação era diferente, os meus amigos quando se apanharam naquele vale, ao invés de aguardarem por mim como ditam as boas regras da camaradagem betetistica, abalaram a quinhentos à hora, nunca mais os vi. Bem, pensei eu cá para com os meus botões “Que se fuck! Espero que tenham o discernimento suficiente para esperarem por mim no “Alpage de Vare” a 1.758 mts”, é o amontoado de casas que se vê numa das fotos.

Quando cheguei lá “nickles, niente”, aí é que a porca torce o rabo como se costuma dizer, pois já passavam das 18h30. Como o GPS tinha dado as últimas, eis que chego a um cruzamento e aí meus amigos coloca-se a terrível questão, esquerda ou direita? Com isso a matracar-me a moina, saco do telemóvel numa última tentativa de ver se tinha rede e não é que para minha surpresa, tinha. Ligo a um, nada, ligo a outro, gravador, por fim ligo ao terceiro e este como que por milagre, tinha rede.

Sem vergonha do que vou escrever e porque já estava passado dos carretos, preocupado com eles, as minhas palavras foram as seguintes (sem tirar, nem por):

“Caralho, pá, que merda é esta, um gajo aqui preocupado convosco e vocês no caralho mais velho, nem tugem, nem mugem e um gajo que se foda, para a próxima venho só, porque vir convosco é a mesma merda”.

“Como é, cá em cima é para a esquerda ou para a direita?” Ao que ele respondeu que era à direita. “Façam favor de me esperar, para que ao menos possamos acabar esta merda juntos”.

Passado nem 1 km lá estavam eles à minha espera. Como não podia deixar de ser, pusemos os pontos nos iiis (na boa, sem “stresses” de maior), dissemos todos, tudo o que tínhamos a dizer e daí abalamos juntos numa fantástica descida de quase 8 kms e +/- 700 mts de desnivel (-) até chegarmos a “Plans-sur-Bex” a 1'072 mts.

Não sei se já repararam que o tempo, embora seja o tempo, sempre igual a si mesmo, por vezes passa mais depressa ou mais devagar, é como se este escolhesse a forma como quer correr, e no caso em apreço, não parava mesmo; daí até chegarmos à estação de “Bex” a 424 mts ainda tivemos de efetuar cerca de 10 kms, por sorte quase sempre a descer 😊.

No final a volta saldou-se em 45 kms, 850 mts (+) e 2'172 mts (-). Nestes quase 6 anos de aventuras, esta foi a primeira vez que apanhei um comboio tão tarde de regresso a casa (já passava das 19h00).

Como diria Ralph Emerson, “Homens superficiais acreditam na sorte... Homens fortes acreditam em causa e efeito” e eu afirmo que a própria vida encarrega-se do resto 😊.


Cumprimentos betetistas e até à próxima crónica…

Alexandre Pereira

Um Bravo do Pelotão, neste caso sem…

Podem visualizar esta crónica com os respetivos comentários às fotos no FORUM BTT. Ler o post (resposta) #621.